sexta-feira, 11 de novembro de 2016

"Se há uma voz que canta a nossa vida, como calá-la? Como admiti-la sem rosto, sem pele, entregue sem retorno ao rumor das águas? Como confiná-la para sempre ao rodar frio de um disco, à mortalha de uma estante?
[...]"

Renata Correia Botelho, "Nota",
small song, 2.ª ed. rev.,
Lisboa, Alambique, 2015




[Fotografia: Leonard Cohen by David Boswell, 1970]

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

SIRENE

A vela apagou-se depois de romper a primeira luz. Havia muito tempo, por trás de uma cortina de pedra, tão fina e negra, sacudida como cabelos negros, como cabelos partindo-se na água. Porque ao fundo de tudo era o mar, patas presas na baba de aranha, ainda agora branca se a luz desce ao parapeito. Esperava muito, adormecia: enquanto o viço venenoso das urtigas ardia no saguão.
Contem as horas e não me acordem antes de um homem saudar na rua o regresso da chuva. Tão longe dos que invadiram as salas de espera, o patamar e dois lances de escada, com chapéus de feltro e fatos de pantera, os anéis intactos por entre o fumo dos cigarros. No corredor, um deus, um anjo vago, apenas um homem, um demónio. Alguém que escapava nas escadas de incêndio, sob o sorriso vermelho das mulheres mortas. 


LUIS MANUEL GASPAR
in Marto R. e Luis Manuel Gaspar, A Sombra do Farol
Lisboa, edição dos autores, 1996

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Pela manhã o gato estende-se
vagaroso nesse impreciso lugar
em que luz e sombra
se entretecem. Nas pedras
rondantes do que sempre chamámos
a nossa casa, esse sonho
de irmos por detrás das janelas
encarcerados nas agrestes
paredes do amor.

Todas as manhãs, enquanto
a escola me espera, o
gato é tão certo como os passos
que dele se desviam. Um mero
olhar, a melancolia
de depois te dizer já sem o mesmo encanto
a sua negra quietude, o silêncio
em que se move.

Estamos todos, eu tu e o gato,
neste estranho sossego
de a morte ser um dia destes,
entre luz e sombra.


Manuel de Freitas, Todos contentes e eu também,
Porto: Campo das Letras, 2000



[Inês Dias, Outubro de 2010]

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Não te lembres de mim, ao nevoeiro
que encerra os barcos negros no abrigo,
para que o olhar da gárgula arguta
roube às goteiras um golo de luz.

Mas a vida secou. A árvore de ouro
de que viste a sombra ferida no muro,
na parede da casa à meia-noite,
de súbito enlaçada ao candeeiro,

morreu. E tu partiste sob a chuva
de outro mundo, sem saberes que fazer
da carruagem com olhos de lobo,

da porta onde o teu corpo se gravou.
Voltarás ao caminho devorado,
das trevas iludido o céu diurno.


LUIS MANUEL GASPAR
in A Sombra do Farol (1995)



quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Feira do Livro do Porto




A Alambique estará presente na Feira do Livro do Porto,
uma vez mais representada pela Livraria Utopia
(pavilhões 51, 52 e 53).