domingo, 10 de julho de 2016
terça-feira, 21 de junho de 2016
#10
Paulo da Costa Domingos, Narrativa,
com carta-prefácio e capa de Vitor Silva Tavares,
Lisboa, Alambique, 26 de Maio de 2016
segunda-feira, 6 de junho de 2016
ODE À NOITE (INTEIRA)
Gosto do momento, exacto ou nem por isso,
em que se torna possível colar cartazes
nas paredes ao lado dos meus ombros (espero
o autocarro, vejo devagar, sorrio). Mas
gosto, sobretudo, dos cães quase sem dono
que roçam as esquinas, pisando restos de garrafas
- ou das pessoas que desconheço
e das bebidas todas que ignoro
(porque me matam menos e se chamam
- como eu - insónia, pesadelo, golpe baixo).
Existem, claro, raparigas louras um tanto
heteredoxas que não te apetece beijar
(a forca do bâton, perfeita - o cigarro aceso
pedindo outro lume). Essas mesmas que hão-de
um dia procriar com zelo, evitando rugas,
tumores e o mundo como representação misógina.
Mais lírica, sem dúvida, é a lavagem das ruas,
com a cerveja a premiar a farda
demasiado verde e os bigodes de serviço.
Outros, alguns, tornam concreto o torpor
de um charro e pedem-te em crioulo básico
um cigarro português que tu vais dar,
sem esforço nem palavras. Entre shots, piercings,
t-shirts de Guevara e gel, podes não acreditar
por algumas horas no axioma frágil do teu corpo.
Esfumas-te, como eles, no espelho de um bar
qualquer, país de enganos e baratas. E
quase gostas disso, quase: a música de punhais,
servil, um certo e procurado desencontro.
Um táxi te ensinará depois o caminho de casa
- ou o seu contrário, pois só ali (anónimo
e desfocado) eras finalmente tu, ou podias ser.
O resto, a vida, fica para outra vez.
Manuel de Freitas
in Sunny Bar, com org. de Rui Pires Cabral,
posfácio de Silvina Rodrigues Lopes, capa de Luís Henriques
e arranjo gráfico de Pedro Santos, Lisboa, Alambique, 2015
sábado, 4 de junho de 2016
terça-feira, 31 de maio de 2016
segunda-feira, 16 de maio de 2016
'Os limites do controlo' (6)
[Jim Jarmusch, Os limites do controlo, 2009]
"[...]
Existe-se na arte. Existe-se com a obra de arte. Cada um a seu modo; e segundo o ritmo do mundo que para a obra de arte saberá transportar. Pertence-lhe uma decisão de sentidos que se joga no momento exacto em que "aparece" e em que, com ela, se estabelece confronto. De um modo mais próximo: avançamos para o "objecto" de arte e dele só "tiramos", como resultado momentaneamente final, aquilo que lhe atribuímos, o que nele vimos e o que sobre ele pensámos. Quase sempre, senão sempre, o que para essa obra canalizámos de desdobramento de nós próprios - seus visitantes -, em grau de conhecimento (e também de ignorância) e de uma escala muito ampla de sensibilidade.
[...]"
João Miguel Fernandes Jorge, "Canovaccio", Telhado de Vidro n.º 3,
Lisboa: Averno, Novembro de 2004
[Antoni Tapiès, Gran Sábana, 1968]
quarta-feira, 11 de maio de 2016
[....]
O teu carro era veloz, tornava pequena
e sórdida a Vinte e Quatro de Julho.
Demasiado veloz, o teu carro, a notícia
sem rasura que chegou de noite
ao silêncio dos corações disponíveis.
Não faz mal. São coisas que acontecem
a "esses gajos da noite". Pois, sabemos muito
bem: a morte, essa certeza improvável.
Bebemos, claro, e fingimos que o nome
dos mortos se apaga na euforia
baça com que os dias se sucedem.
Também temos, por enquanto, uma razão
precária e urgente para fingirmos e ficarmos.
O que é muito humano - e um pouco desprezível.
Só nunca saberei o que me querias dizer
sobre Blanchot, l'entretien (in)fini. Não esperei
que regressasses do carro, com o livro anotado,
e o último copo parece-me agora
uma despedida incompleta, um rasto de cinza
que tinge de mágoa o balcão a que me encosto.
Deus, Miguel, é esse estafermo iletrado
a quem nunca dedicaste um verso. Fizeste bem.
Manuel de Freitas
in Sunny Bar, com sel. de Rui Pires Cabral, posfácio de Silvina Rodrigues Lopes,
capa de Luís Henriques e arranjo gráfico de Pedro Santos,
Lisboa, Alambique, 2015
quinta-feira, 21 de abril de 2016
sexta-feira, 15 de abril de 2016
BALLADEN OM JENNY LIND
E é de novo sexta-feira, na mesma cidade.
As sirenes respondem pontualmente
aos corpos e bicicletas que se perdem
noite dentro. Nada que possa incomodar
o sono altivo dos mendigos da Stroget,
enrolados em mantas e garrafas já sem cor.
Decidimos tomar o último copo
no café Monten. Ao balcão, os homens
dos barcos falavam de todos os países
que viram ou não viram, sob nuvens de fumo
que escondiam mal um inglês de circunstância.
Na parede junto à nossa mesa (recorte
da época) Jenny Lind morria - e eu
ficava a saber, em sueco, que "Rökning
dödar", o que não parecia incomodar
nenhum dos presentes. No Nyhavn,
porém, anoitecia muito depressa. Teremos
de esperar pela neve, agora que passou a chuva.
que viram ou não viram, sob nuvens de fumo
que escondiam mal um inglês de circunstância.
Na parede junto à nossa mesa (recorte
da época) Jenny Lind morria - e eu
ficava a saber, em sueco, que "Rökning
dödar", o que não parecia incomodar
nenhum dos presentes. No Nyhavn,
porém, anoitecia muito depressa. Teremos
de esperar pela neve, agora que passou a chuva.
Manuel de Freitas, Brynt Kobolt,
Lisboa: Averno, 2008
[ID, Santarém, 2013]
quarta-feira, 13 de abril de 2016
quarta-feira, 6 de abril de 2016
'Os limites do controlo' (3)
"I have measured out my life with coffee spoons"
- T. S. ELIOT
- T. S. ELIOT
[Inês Dias, 'God is in the details', 19/12/014]
terça-feira, 23 de fevereiro de 2016
segunda-feira, 18 de janeiro de 2016
Aniversário *
2005, GUSTAV LEONHARDT
a beleza habita sobre a terra,
tão urgente e impronunciável
como o rosto em trompe l’oeil
na abóbada da igreja de São Roque.
Com isto, estarei talvez a fazer
a mesma triste figura da rapariga espanhola
que ao meu lado rabiscava poemas
dialécticos – «Argumentos» e Contra-
Argumentos» velozmente incinerados
pela fundamentação física do génio.
Nós, poetas, só escrevemos disparates.
A beleza, dizia eu. Mas os meus pés,
o seu indiscutível peso sobre a terra,
coincidiam com o mármore da sepultura
número 44 (dois terços de paixão, outro de pó).
E aquele homem ajudava-nos a morrer
melhor.
Manuel de Freitas, Jukebox 1 & 2,
Lisboa, Teatro de Vila Real, 2009
* Gustav Leonhardt, 30/05/1928 - 16/01/2012
quarta-feira, 30 de dezembro de 2015
AVERNO | ALAMBIQUE 2015
Os nossos livros de 2015
- SMALL SONG, de Renata Correia Botelho, com ilustrações de Daniela Gomes (2.ª ed. revista, Alambique);
- PERDA DE INVENTÁRIO, de Marta Chaves, com separata de Maria Manuel Viana (Alambique);
- ÚSNEA, de Abel Neves, com uma fotografia de José Francisco Azevedo na capa (Averno);
- DEUS E OUTROS ANIMAIS, de Rui Caeiro, com organização de Delfim Lopes, posfácio de José Ángel Cilleruelo e ilustrações de Bárbara Assis Pacheco (Averno);
- RÃ, de José Carlos Soares, com capa e ilustração de João Concha (Alambique);
- PÁSSARO-LYRA (Primeiro Tomo da Suma Poética), de António Barahona (Averno);
- SUNNY BAR, de Manuel de Freitas, com organização de Rui Pires Cabral, posfácio de Silvina Rodrigues Lopes e capa de Luís Henriques (Alambique);
- AMANHÃ LOGO SE VÊ, de Vítor Nogueira, com capa de Adriana Molder (Averno);
- COMO UM HIATO NA RESPIRAÇÃO - DIÁRIO DO DIA SEGUINTE, de João Barrento, com capa sobre desenho de Catarina Domingues (Averno);
- TELHADOS DE VIDRO n.º 20, com separata de Adília Lopes (Averno);
- OS MEUS PAIS: ROMEU E JULIETA, de Pablo Fidalgo Lareo, com tradução de Manuel de Freitas e capa de José Francisco Azevedo (Averno);
- CAL, de Paulo da Costa Domingos (Averno);
- LVMINARIA, de Luis Manuel Gaspar, com capa de José Escada (2.ª ed. revista, Alambique);
- INCIPIT, de Manuel de Freitas
terça-feira, 8 de dezembro de 2015
CHÃO ANTIGO
para o António Manuel Couto Viana
esses lugares imundos – puros, quero eu
dizer – onde a morte entrava
sem ter de pedir licença.
Lugares onde eram por igual sinceros
o sono, o vómito ou a sombra de um abraço
(Mayakovsky e Céline tinham a mesma importância
e a sorte de não serem futebolistas).
É pena que já não possamos
comemorar no chão a derrota
do corpo pela manhã. Ao lavarem
os copos, da última vez, houve duas
ou três gerações que se partiram.
Talvez eu pertencesse a uma delas – mas
isso, ao poema, importa muito pouco.
Há um lugar que escreve sobre
a ausência de todos os lugares.
Tonéis de vários tamanhos
onde inscrevi, por distracção,
o único nome verdadeiro.
Estou a falar, naturalmente,
de tabernas.
Mas talvez não seja apenas isso.
Manuel de Freitas, A Flor dos Terramotos,
com capa de Sérgio Eloy e arranjo gráfico de Olímpio Ferreira,
Lisboa, Averno, 2005
segunda-feira, 26 de outubro de 2015
#8
Luis Manuel Gaspar, LVMINARIA,
2.ª ed. revista, com capa de José Escada e arranjo gráfico de Inês Mateus,
Lisboa: Alambique, 2015
sábado, 24 de outubro de 2015
LUIS MANUEL GASPAR
Luis Manuel Gaspar, Luz Acesa nos Bastidores,
Palacete dos Viscondes de Balsemão, Praça de Carlos Alberto, 71, Porto
24 Out.-24 Nov. 2015, 2.ª a 6.ª feira, 9:00h- 20:00h
design © Luísa Martelo
terça-feira, 20 de outubro de 2015
TE DEUM
II
Havia, portanto, uma cidade
onde os nossos corpos se cansavamsofregamente de ser jovens.
Recomeçava, de cada vez, a morte.
Sabíamo‑lo. A regra, porém,
é antes esquecer, ficar. Como poderia
levar‑vos a mal? De um lado vocês
e a vida — e eu nesse outro em que se
não vive nem morre a demora de estar ainda.
Atravesso o jardim do Cartaxo
como um estrangeiro, alguém
que não viu as garrafas partirem‑se
contra a madrugada — e, se acendo
um charro, partilho‑o com as paredes,
esqueço‑me de que tenho mãos.
Pedro, Paulo — onde quer que estejam —,
eu sei que dizer muito baixinho
la muy hermosa é o suficiente para que
o paraíso reabra e o inferno (o mesmo)
se torne de novo possível. Contornando
o bilhar russo, o Carlos traz‑nos
mais três ginjas, um sorriso com sotaque,
o céu estrelado que nos mata.
A seguir, bem sabem, pago eu.
Manuel de Freitas
in Sunny Bar, com sel. de Rui Pires Cabral, posfácio de Silvina Rodrigues Lopes,
capa de Luís Henriques e arranjo gráfico de Pedro Santos,
Lisboa: Alambique, 2015
capa de Luís Henriques e arranjo gráfico de Pedro Santos,
Lisboa: Alambique, 2015
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