terça-feira, 8 de dezembro de 2015

CHÃO ANTIGO


para o António Manuel Couto Viana


É pena que já não existam
esses lugares imundos – puros, quero eu
dizer – onde a morte entrava
sem ter de pedir licença.
Lugares onde eram por igual sinceros
o sono, o vómito ou a sombra de um abraço
(Mayakovsky e Céline tinham a mesma importância
e a sorte de não serem futebolistas).

É pena que já não possamos
comemorar no chão a derrota
do corpo pela manhã. Ao lavarem
os copos, da última vez, houve duas
ou três gerações que se partiram.
Talvez eu pertencesse a uma delas – mas
isso, ao poema, importa muito pouco.

Há um lugar que escreve sobre
a ausência de todos os lugares.
Tonéis de vários tamanhos
onde inscrevi, por distracção,
o único nome verdadeiro.
Estou a falar, naturalmente,
de tabernas.
Mas talvez não seja apenas isso.




Manuel de Freitas, A Flor dos Terramotos,
com capa de Sérgio Eloy e arranjo gráfico de Olímpio Ferreira,
Lisboa, Averno, 2005

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

#8




Luis Manuel Gaspar, LVMINARIA,
2.ª ed. revista, com capa de José Escada e arranjo gráfico de Inês Mateus,
Lisboa: Alambique, 2015

sábado, 24 de outubro de 2015

LUIS MANUEL GASPAR




Luis Manuel Gaspar, Luz Acesa nos Bastidores
Palacete dos Viscondes de Balsemão, Praça de Carlos Alberto, 71, Porto

24 Out.-24 Nov. 2015, 2.ª a 6.ª feira, 9:00h- 20:00h


design © Luísa Martelo

terça-feira, 20 de outubro de 2015

TE DEUM


II

Havia, portanto, uma cidade
onde os nossos corpos se cansavam
sofregamente de ser jovens.
Recomeçava, de cada vez, a morte.
Sabíamo‑lo. A regra, porém,
é antes esquecer, ficar. Como poderia
levar‑vos a mal? De um lado vocês
e a vida — e eu nesse outro em que se
não vive nem morre a demora de estar ainda.

Atravesso o jardim do Cartaxo
como um estrangeiro, alguém
que não viu as garrafas partirem‑se
contra a madrugada — e, se acendo
um charro, partilho‑o com as paredes,
esqueço‑me de que tenho mãos.

Pedro, Paulo — onde quer que estejam —,
eu sei que dizer muito baixinho
la muy hermosa é o suficiente para que
o paraíso reabra e o inferno (o mesmo)
se torne de novo possível. Contornando
o bilhar russo, o Carlos traz‑nos
mais três ginjas, um sorriso com sotaque,
o céu estrelado que nos mata.

A seguir, bem sabem, pago eu.


Manuel de Freitas
in Sunny Bar, com sel. de Rui Pires Cabral, posfácio de Silvina Rodrigues Lopes, 
capa de Luís Henriques e arranjo gráfico de Pedro Santos, 
Lisboa: Alambique, 2015

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

terça-feira, 29 de setembro de 2015

VILA VELHA DE RÓDÃO




Os livros da Alambique 
na Feira do Livro organizada pela Biblioteca Municipal de Vila Velha de Ródão
no âmbito do POESIA, UM DIA.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

A cabeça estala por dentro, cansada das visões do Inferno. O Inferno é a perda de cor, de movimento, a perda de vida. Quando perdemos a vontade de regressar ao amplo espaço onde conhecemos a tranquilidade dos sonhos por realizar, é porque já não queremos fugir para o único lugar onde a vida alguma vez fez sentido. O Inferno não é a solidão mas, sim, a barreira que nos isola dos outros. O silêncio estático e apático que nos interroga através das imensas cortinas de água que toldam os nossos olhos; um sorriso que não é dirigido a ninguém. Passamos da escuridão à luz e da luz à escuridão. De cada vez, ficamos apavorados, com medo de abandonar o mundo que já conhecemos, de acabar, de chegar ao fim. Mas tudo é apenas uma passagem para outro universo, para um novo estado, um novo mundo, como nos explicou a longínqua voz de Lhasa de Sela. A beleza é impossível sem as marcas da morte, da separação, da consciência da morte que dá sentido à vida. [...]


Rui Chafes, Entre o Céu e a Terra,
Lisboa: Documenta, 2012