terça-feira, 29 de setembro de 2015

VILA VELHA DE RÓDÃO




Os livros da Alambique 
na Feira do Livro organizada pela Biblioteca Municipal de Vila Velha de Ródão
no âmbito do POESIA, UM DIA.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

A cabeça estala por dentro, cansada das visões do Inferno. O Inferno é a perda de cor, de movimento, a perda de vida. Quando perdemos a vontade de regressar ao amplo espaço onde conhecemos a tranquilidade dos sonhos por realizar, é porque já não queremos fugir para o único lugar onde a vida alguma vez fez sentido. O Inferno não é a solidão mas, sim, a barreira que nos isola dos outros. O silêncio estático e apático que nos interroga através das imensas cortinas de água que toldam os nossos olhos; um sorriso que não é dirigido a ninguém. Passamos da escuridão à luz e da luz à escuridão. De cada vez, ficamos apavorados, com medo de abandonar o mundo que já conhecemos, de acabar, de chegar ao fim. Mas tudo é apenas uma passagem para outro universo, para um novo estado, um novo mundo, como nos explicou a longínqua voz de Lhasa de Sela. A beleza é impossível sem as marcas da morte, da separação, da consciência da morte que dá sentido à vida. [...]


Rui Chafes, Entre o Céu e a Terra,
Lisboa: Documenta, 2012




domingo, 27 de setembro de 2015

Manuel de Freitas, SUNNY BAR,
com selecção de Rui Pires Cabral, posfácio de Silvina Rodrigues Lopes, 
capa de Luís Henriques e arranjo gráfico de Pedro Santos,
Lisboa: Alambique, 2015

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

FEIRA DO LIVRO DO PORTO


Os livros da Alambique estarão representados
pela Livraria Utopia (stands 48, 49 e 50)
na Feira do Livro do Porto. 



domingo, 19 de julho de 2015

AS PAREDES DO SENTIDO TÊM DE FACTO BOLOR


Está tudo bem. O céu do Ocidente
decai, os índices da Bolsa mantêm-se
estáveis, catastroficamente presentes
na vida de cada um de nós
- aqueles que adiam o amor e
que sempre gostaram tanto
de mentiras certas e portáteis.

O céu do Ocidente, em Lisboa, é
um fundo negro de asfixia e paixão
onde apenas estrelas moribundas 
nos lembram que existe um olhar míope
- enquanto o milénio finda
com as suas máquinas de triturar canções,
os tão pequenos ardis que promovem
a derrota. O sangue parado, no chão.

E os índices da Bolsa como raparigas
novas nos infatigáveis jornais
por ler, ao lado dos cigarros, ajudam-nos
a esquecer os cancros que uma moral suspeita
soletra. Será isto a vida? Também.
O telemóvel de Prometeu dá-nos
indicações precisas sobre a ignorância,
observa o fuso horário do desespero.

Modos de pavor, em suma,
que em qualquer tempo seriam
esta mão ocidental e fria
que escreve para ninguém ouvir
o nada que tem (terá?)
para dizer na noite corrompida.
As coisas são assim, paciência,
e aglutinam-se, em dígitos complicados,
o novo Peugeot pensante,
terapias por cumprir de Burton:

a melancolia nos ossos, as fezes da amada
sob a cabeça amante,
enquanto um airbag trocista
nos obriga a uma vida
que se gastou tão gasta
e que rescende nula
nos mais variados aspectos.

Pois é.


- MANUEL DE FREITAS

sábado, 11 de julho de 2015

POMPE INUTILI


                             a Silvina Rodrigues Lopes


Nessuno nasce; sarebbe uno sproposito
chiamare qualcuno i residui
di placenta che avvolgono
un insieme di organi
a tutto o quasi a tutto predisposti.

Solo i morti, veramente,
esistono. Che abbiano scritto o non
abbiano scritto libri, lettere d'amore,
diari. Non importa: li abbiamo
incrociati, a volte si sono seduti
allo stesso tavolo, hanno persino creduto
nel tenero supplizio dell'amore.
E avevano mani reali, nel toccare
il viso imberbe da cui si congedavano.
Un bacio, soltanto sulle rughe,
riusciva a rendere meno freddi i mattini.

Si congedano molto male, i morti.
Sebbene, per una volta, siano
esatti e sinceri – nel momento
in cui scendono nella terra e ci impediscono
di condividere con loro una sigaretta,
l'ultimo bicchiere, una specie di destino.

Sono terribilmente reali, i morti.
La vita intera non basta
perché si possa ucciderli tutti,
uno ad uno, come di certo consiglierebbe
la più elementre igiene metafisica.
Ci danno, tuttavia, la forza necessaria
per morire sempre di più, tollerando
giorni in affitto, case leggermente
inabitabili. Perché gli altri, in
verità, non sono altro che morti imperfetti.
Sono, come noi, un po' troppo vivi.

Forse un giorno, però, potranno
firmare una poesia così (e può anche non essere
una poesia, molto meno così), in cui si noti,
oltre alle influenze ovvie, una certa
– diciamo – specializzazione nell'orrore.
Perché è solo di questo che si tratta.

I morti lo sanno.
La saggezza è inutile.
La poesia anche.


*


para a Silvina Rodrigues Lopes


Ninguém nasce; seria descabido
chamar alguém aos resíduos
de placenta que envolvem
um conjunto de órgãos
a tudo ou quase tudo predispostos.

Só os mortos, verdadeiramente,
existem. Escreveram ou não
escreveram livros, cartas de amor,
diários. Não importa: cruzaram-se
connosco, sentaram-se por vezes
à mesma mesa, acreditaram até
no terno suplício do amor.
E tinham mãos reais, ao tocarem
o rosto imberbe de que se despediam.
Um beijo, sobre rugas apenas,
conseguia tornar menos frias as manhãs.

Despedem-se muito mal, os mortos.
Embora, por uma vez, sejam
exactos e sinceros – no momento
em que descem à terra e nos impedem
de partilhar com eles um cigarro,
o último copo, uma espécie de destino.

São terrivelmente reais, os mortos.
A vida inteira não chega
para que possamos matá-los a todos,
um a um, como decerto aconselharia
a mais elementar higiene metafísica.
Dão-nos, contudo, a força necessária
para morrer cada vez mais, tolerando
dias de aluguer, casas ligeiramente
inabitáveis. Porque os outros, na
verdade, não passam de mortos imperfeitos.
Estão, como nós, um pouco demasiado vivos.

Talvez um dia, porém, venham a
assinar um poema assim (e pode até não ser
um poema, muito menos assim), em que se note,
além das influências óbvias, uma certa
– digamos – especialização no horror.
Pois é disso apenas que se trata.

Os mortos sabem-no.
A sabedoria é inútil.
A poesia também.


- Manuel de Freitas
traduzido por Daniela Di Pasquale

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Sunny, sunny bar

Trapiche, Santa Quitéria,
Boa Morte. Gostávamos
sobretudo de perder os autocarros,
sentados na esplanada mais
anacrónica do mundo
- do nosso mundo.

Em cada um adivinhávamos
fatigados destinos,
novíssimas furnas,
cercos de álcool em afronta.
Pedia, só para ti, outro gin tónico.

Mas éramos jovens, talvez felizes.
E o amor apenas nos bastava.


Manuel de Freitas, Levadas,
Lisboa: Assírio & Alvim, 2004




[Fotografia de Vítor Sousa, Funchal, 2015]