domingo, 19 de julho de 2015

AS PAREDES DO SENTIDO TÊM DE FACTO BOLOR


Está tudo bem. O céu do Ocidente
decai, os índices da Bolsa mantêm-se
estáveis, catastroficamente presentes
na vida de cada um de nós
- aqueles que adiam o amor e
que sempre gostaram tanto
de mentiras certas e portáteis.

O céu do Ocidente, em Lisboa, é
um fundo negro de asfixia e paixão
onde apenas estrelas moribundas 
nos lembram que existe um olhar míope
- enquanto o milénio finda
com as suas máquinas de triturar canções,
os tão pequenos ardis que promovem
a derrota. O sangue parado, no chão.

E os índices da Bolsa como raparigas
novas nos infatigáveis jornais
por ler, ao lado dos cigarros, ajudam-nos
a esquecer os cancros que uma moral suspeita
soletra. Será isto a vida? Também.
O telemóvel de Prometeu dá-nos
indicações precisas sobre a ignorância,
observa o fuso horário do desespero.

Modos de pavor, em suma,
que em qualquer tempo seriam
esta mão ocidental e fria
que escreve para ninguém ouvir
o nada que tem (terá?)
para dizer na noite corrompida.
As coisas são assim, paciência,
e aglutinam-se, em dígitos complicados,
o novo Peugeot pensante,
terapias por cumprir de Burton:

a melancolia nos ossos, as fezes da amada
sob a cabeça amante,
enquanto um airbag trocista
nos obriga a uma vida
que se gastou tão gasta
e que rescende nula
nos mais variados aspectos.

Pois é.


- MANUEL DE FREITAS

sábado, 11 de julho de 2015

POMPE INUTILI


                             a Silvina Rodrigues Lopes


Nessuno nasce; sarebbe uno sproposito
chiamare qualcuno i residui
di placenta che avvolgono
un insieme di organi
a tutto o quasi a tutto predisposti.

Solo i morti, veramente,
esistono. Che abbiano scritto o non
abbiano scritto libri, lettere d'amore,
diari. Non importa: li abbiamo
incrociati, a volte si sono seduti
allo stesso tavolo, hanno persino creduto
nel tenero supplizio dell'amore.
E avevano mani reali, nel toccare
il viso imberbe da cui si congedavano.
Un bacio, soltanto sulle rughe,
riusciva a rendere meno freddi i mattini.

Si congedano molto male, i morti.
Sebbene, per una volta, siano
esatti e sinceri – nel momento
in cui scendono nella terra e ci impediscono
di condividere con loro una sigaretta,
l'ultimo bicchiere, una specie di destino.

Sono terribilmente reali, i morti.
La vita intera non basta
perché si possa ucciderli tutti,
uno ad uno, come di certo consiglierebbe
la più elementre igiene metafisica.
Ci danno, tuttavia, la forza necessaria
per morire sempre di più, tollerando
giorni in affitto, case leggermente
inabitabili. Perché gli altri, in
verità, non sono altro che morti imperfetti.
Sono, come noi, un po' troppo vivi.

Forse un giorno, però, potranno
firmare una poesia così (e può anche non essere
una poesia, molto meno così), in cui si noti,
oltre alle influenze ovvie, una certa
– diciamo – specializzazione nell'orrore.
Perché è solo di questo che si tratta.

I morti lo sanno.
La saggezza è inutile.
La poesia anche.


*


para a Silvina Rodrigues Lopes


Ninguém nasce; seria descabido
chamar alguém aos resíduos
de placenta que envolvem
um conjunto de órgãos
a tudo ou quase tudo predispostos.

Só os mortos, verdadeiramente,
existem. Escreveram ou não
escreveram livros, cartas de amor,
diários. Não importa: cruzaram-se
connosco, sentaram-se por vezes
à mesma mesa, acreditaram até
no terno suplício do amor.
E tinham mãos reais, ao tocarem
o rosto imberbe de que se despediam.
Um beijo, sobre rugas apenas,
conseguia tornar menos frias as manhãs.

Despedem-se muito mal, os mortos.
Embora, por uma vez, sejam
exactos e sinceros – no momento
em que descem à terra e nos impedem
de partilhar com eles um cigarro,
o último copo, uma espécie de destino.

São terrivelmente reais, os mortos.
A vida inteira não chega
para que possamos matá-los a todos,
um a um, como decerto aconselharia
a mais elementar higiene metafísica.
Dão-nos, contudo, a força necessária
para morrer cada vez mais, tolerando
dias de aluguer, casas ligeiramente
inabitáveis. Porque os outros, na
verdade, não passam de mortos imperfeitos.
Estão, como nós, um pouco demasiado vivos.

Talvez um dia, porém, venham a
assinar um poema assim (e pode até não ser
um poema, muito menos assim), em que se note,
além das influências óbvias, uma certa
– digamos – especialização no horror.
Pois é disso apenas que se trata.

Os mortos sabem-no.
A sabedoria é inútil.
A poesia também.


- Manuel de Freitas
traduzido por Daniela Di Pasquale

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Sunny, sunny bar

Trapiche, Santa Quitéria,
Boa Morte. Gostávamos
sobretudo de perder os autocarros,
sentados na esplanada mais
anacrónica do mundo
- do nosso mundo.

Em cada um adivinhávamos
fatigados destinos,
novíssimas furnas,
cercos de álcool em afronta.
Pedia, só para ti, outro gin tónico.

Mas éramos jovens, talvez felizes.
E o amor apenas nos bastava.


Manuel de Freitas, Levadas,
Lisboa: Assírio & Alvim, 2004




[Fotografia de Vítor Sousa, Funchal, 2015]

domingo, 14 de junho de 2015

13 DE JUNHO DE 2011


para a Inês Dias



A festa foi ontem. Mas não tivemos festa,
pela primeira vez em muitos anos.
Almoçámos tarde, na Rua da Regueira,
e o amor parecia diluir-se entre vielas
demasiado limpas e sombras do que já fomos. 

grinaldas frias, versos sem dono
nem sentido. Perto, ou  muito longe,
três velas teimavam em iluminar-te os passos.
O cravo, azul, veio ao nosso desencontro.
Mas era de papel, embora rubro;
não nos podia salvar de sermos nós. 

A festa, a única que me interessa é o teu nome. 


Manuel de Freitas, Sunny Bar,
sel. de Rui Pires Cabral, Lisboa: Alambique, 2015




[ID, 12/13 de Junho de 2015]

Feira do Livro de Lisboa




A Alambique
representada pela Livraria Letra Livre.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

sábado, 25 de abril de 2015

A VIDA


Da flor japonesa à coxa da rã galvanizada, vai ser preciso dormir muito para nos apercebermos da transformação. Da porta que é um corpo-a-corpo, à janela que é uma peleja, o soalho é um papagaio, o tecto um corvo que teve medo.
Há ainda a recordar do dia seguinte, a recordação de atrozes aventuras num nevoeiro de enforcado. Sabe que foi denunciado, que um parapeito está dali em diante à sua volta para o impedir de se lançar no relógio inútil que se pôs a indicar as horas. A aurora da tarde filtrada lembra-lhe a carne pura que, na proximidade dos homens, sempre desaparece num ruído de canaviais. Porque ele tocará a carne muito tempo sem a sentir e, quando a sentir, será à maneira daqueles animais encantadores que apenas sonham com a liberdade.
Toda uma rede de caretas e de contorções se opõe a que a jangada da sua idade regresse à secreta fonte do seu coração. A tarde em vão fecha a porta, uma estrada de passos, de sons, de esperança e de fadiga sempre lhe mostra aquelas grandes construções negras em que tudo para ele se compõe.
O vago substitui pouco a pouco o determinado. Em vez do sangue estende-se o mata-borrão, o mata-borrão que se embebe nas suas cartas sempre maniacamente datadas de Creusot. Olhos puros de nuvens pousam sobre ele como a ave na sua sombra. Lâmpadas varrem com a sua saia de pedra a escadaria de prata que vai dar ao grande ar dos países sem janelas. Que procura então este homem que faz uma mancha na terra? Este pobre quebra-luz lá está sobre a lâmpada das estrelas cadentes. Debate-se com a sombra matizada que choca nas suas pregas ovos de galinha-d’água, donde nascerão em hora adiantada o dever, a oportunidade a pequena felicidade e o fracasso. Os poderes do desespero com as suas rosas de sabão, os seus afagos desencontrados, a sua dignidade mal vestida, as suas respostas fugidias a perguntas de granito apoderam-se dele. Levam-no à escola das escórias, depois de o terem trajado com um avental de fogo. Persuadem-no de que o cabo de vassoura das bruxas cai a pique numa eternidade grotesca de retaguardas brilhantemente esclarecidas. Bocejam-lhe na cara sobretudo, e o que tem de mais trágico, bocejam sobre a mulher sem sequer terem o cuidado de pôr a mão sobre a boca, bocejam dos frutos da mulher com aroma de amêndoas amargas, bocejam da beleza, bocejam da duração, bocejam da recusa desta beleza e desta duração.
Uma manhã, ele lá está, a ver respirar uma cabeleira de anémonas. A rua saúda com todas as suas rodas, Entre todos os astros este... entre todos os astros… este que se submete a este astro inesquecível... Está tão perfeitamente só que se exceptua do total. Fita o dorso dos livros que se arqueiam. Escuta a música que brilha nos sapatos. Por vezes, ao meio-dia, sorri doze vezes. Sorri também à noite, quando tem medo. Põe em todas as suas sensações as algemas do sorriso.


André Breton e Paul Éluard, A Imaculada Concepção
Lisboa: Estúdios Cor, 1972