sábado, 25 de abril de 2015

A VIDA


Da flor japonesa à coxa da rã galvanizada, vai ser preciso dormir muito para nos apercebermos da transformação. Da porta que é um corpo-a-corpo, à janela que é uma peleja, o soalho é um papagaio, o tecto um corvo que teve medo.
Há ainda a recordar do dia seguinte, a recordação de atrozes aventuras num nevoeiro de enforcado. Sabe que foi denunciado, que um parapeito está dali em diante à sua volta para o impedir de se lançar no relógio inútil que se pôs a indicar as horas. A aurora da tarde filtrada lembra-lhe a carne pura que, na proximidade dos homens, sempre desaparece num ruído de canaviais. Porque ele tocará a carne muito tempo sem a sentir e, quando a sentir, será à maneira daqueles animais encantadores que apenas sonham com a liberdade.
Toda uma rede de caretas e de contorções se opõe a que a jangada da sua idade regresse à secreta fonte do seu coração. A tarde em vão fecha a porta, uma estrada de passos, de sons, de esperança e de fadiga sempre lhe mostra aquelas grandes construções negras em que tudo para ele se compõe.
O vago substitui pouco a pouco o determinado. Em vez do sangue estende-se o mata-borrão, o mata-borrão que se embebe nas suas cartas sempre maniacamente datadas de Creusot. Olhos puros de nuvens pousam sobre ele como a ave na sua sombra. Lâmpadas varrem com a sua saia de pedra a escadaria de prata que vai dar ao grande ar dos países sem janelas. Que procura então este homem que faz uma mancha na terra? Este pobre quebra-luz lá está sobre a lâmpada das estrelas cadentes. Debate-se com a sombra matizada que choca nas suas pregas ovos de galinha-d’água, donde nascerão em hora adiantada o dever, a oportunidade a pequena felicidade e o fracasso. Os poderes do desespero com as suas rosas de sabão, os seus afagos desencontrados, a sua dignidade mal vestida, as suas respostas fugidias a perguntas de granito apoderam-se dele. Levam-no à escola das escórias, depois de o terem trajado com um avental de fogo. Persuadem-no de que o cabo de vassoura das bruxas cai a pique numa eternidade grotesca de retaguardas brilhantemente esclarecidas. Bocejam-lhe na cara sobretudo, e o que tem de mais trágico, bocejam sobre a mulher sem sequer terem o cuidado de pôr a mão sobre a boca, bocejam dos frutos da mulher com aroma de amêndoas amargas, bocejam da beleza, bocejam da duração, bocejam da recusa desta beleza e desta duração.
Uma manhã, ele lá está, a ver respirar uma cabeleira de anémonas. A rua saúda com todas as suas rodas, Entre todos os astros este... entre todos os astros… este que se submete a este astro inesquecível... Está tão perfeitamente só que se exceptua do total. Fita o dorso dos livros que se arqueiam. Escuta a música que brilha nos sapatos. Por vezes, ao meio-dia, sorri doze vezes. Sorri também à noite, quando tem medo. Põe em todas as suas sensações as algemas do sorriso.


André Breton e Paul Éluard, A Imaculada Concepção
Lisboa: Estúdios Cor, 1972

terça-feira, 14 de abril de 2015

#6




José Carlos Soares, ,
com capa e ilustração de João Concha,
Lisboa: Alambique, 2015
[150 exemplares]

segunda-feira, 30 de março de 2015

Leituras paralelas


Regressar a casa sozinho e noite dentro
quando o silêncio das árvores da rua se acentua
e os poemas que nunca hás-de fazer te atingem
com o fragor de telhas caídas de um telhado
mesmo em cima da tua cabeça - tanta fragilidade
E por fim entrar em casa, ordeiramente
A essa hora todo e qualquer remorso
é coisa de somenos, importante sim
para dormir, para brincar, só a morte
Ursinho de peluche no travesseiro
da cama - a tua morte


Rui Caeiro, Sobre a nossa morte bem muito obrigado,
com capa de Luís Henriques,
Lisboa: Alambique, 18 de Abril de 2014






URSOS


Um homem que foi atacado por um urso relata 
não é das garras nem dos dentes que se recorda
mas apenas da prolongada macieza do seu pelo


Rui Caeiro, Deus e outros animais,
org. Delfim Lopes, desenhos de Bárbara Assis Pacheco 
e posfácio de José Ángel Cilleruelo, Lisboa: Averno, 2015

quarta-feira, 25 de março de 2015

UMA ORAÇÃO


Senhor que tudo sabes e podes
e nada fazes e ainda bem
livrai-nos das prostitutas mais irresistíveis
e dos padres que tudo perdoam
e dos poetas que têm missão a cumprir
mas principalmente livra os outros
livra todos os outros
dos inúteis sonhadores pretensiosos
inveterados bêbados como Tu e eu




Rui Caeiro, Deus e outros animais,
com organização de Delfim Lopes, 
desenhos de Bárbara Assis Pacheco e posfácio de José Ángel Cilleruelo, 
Lisboa: Averno, 2015 

sábado, 21 de março de 2015

segunda-feira, 16 de março de 2015

LARGO DA MISERICÓRDIA


para o Luís Gomes


Sim, regressamos sempre
à perfídia do real
- chamemos-lhe assim, 
agora que ninguém
(muito menos os taxistas)
recorda ou utiliza 
o nome legítimo deste largo. 

Comecei pela taberna,
à esquerda de quem
sobe devagar
as Escadinhas do Dique.
Anos mais tarde, a pensão
Estrela de Ouro ensinou-me 
que o amor e o sexo
são exactamente a mesma morte:
litania de cerveja, sem preservativo. 

De um lado e de outro,
os alfarrabistas. Príncipes do pó
- e senhores, por vezes,
da lenta medida dos gestos,
do peso único de cada verso.
Quando entardece, em Lisboa, 
já sem eléctricos, já sem
Ruy Cinatti, já sem tanta coisa.

A gata recolhe-se - mortal,
feliz de o não saber. Deita-se
no sofá e concorda ou não
concorda com a ornitologia 
sacra de Messiaen. Talvez 
até prefira Hemingway,
cansados livros de bolso,
a qualquer primeira edição de Herberto.
Assina, junto de quem entra, 
um nome impronunciavelmente belo. 


*


Os candeeiros acendem-se,
menos rodeados
de pombas e de arrumadores.
O último cliente, por hoje,
queria um livro sobre os fundamentos
éticos da política norte-americana
e entrava, sem saber, num poema
inédito de José Miguel Silva.
Lá fora o mundo, a inapagável distância.

Sabe-o, melhor que nós, 
a gata, entre livros e livros
que terá a sorte de não ler. 
Aproxima-se, não tem pressa,
vem recordar-nos que estamos
vivos - menos felizes, mas vivos - 
à mercê de um verso, da sombra
pálida dos livros, da música
contrária à evidência de haver mundo. 

Este navio vai partir agora. 
Não navega, não cavalga, não tem espelhos. 
Página a página nos matamos
- portugueses, suaves, tão concretos. 


Manuel de Freitas, Blues for Mary Jane,
Lisboa: &etc, 2004

sábado, 31 de janeiro de 2015



Rui Caeiro, SOBRE A NOSSA MORTE BEM MUITO OBRIGADO, 
2.ª ed., com capa de Luís Henriques, Lisboa: Alambique, 2014

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Isabel Nogueira (texto) e Paulo Furtado (música), A KIND OF BLUE,
Lisboa: Alambique, 2014

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Maria da Conceição Caleiro, TOO MUCH,
com capa de Rui Pires Cabral, Lisboa: Alambique, 2014

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Renata Correia Botelho, SMALL SONG,
2.ª ed., com capa e desenhos de Daniela Gomes, Lisboa: Alambique, 1 de Janeiro de 2015

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Marta Chaves, PERDA DE INVENTÁRIO,
com capa de Inês Dias e separata de Maria Manuel Viana, Lisboa: Alambique, 17 de Janeiro de 2015