Max Ernst, 1920
sexta-feira, 26 de setembro de 2014
sábado, 20 de setembro de 2014
RETRATO
Uma demora lenta nas palavras
um calor bom na palma das mãos
uma maneira de gostar das pessoas e das coisas
sem tolher movimentos ou forçar as superfícies
beber aos golinhos o café a ferver
ou o whisky chocalhado com pedrinhas de gelo
viver viver roçando as coisas ao de leve
sem poupar o veludo das mãos e do corpo
sem regatear o amor à flor da pele
olhar em torno de si perdida ou esperar o verão
e saber de um saber obscuro que o calor
todo o calor é de mais dentro que vem
um calor bom na palma das mãos
uma maneira de gostar das pessoas e das coisas
sem tolher movimentos ou forçar as superfícies
beber aos golinhos o café a ferver
ou o whisky chocalhado com pedrinhas de gelo
viver viver roçando as coisas ao de leve
sem poupar o veludo das mãos e do corpo
sem regatear o amor à flor da pele
olhar em torno de si perdida ou esperar o verão
e saber de um saber obscuro que o calor
todo o calor é de mais dentro que vem
Rui Caeiro, Livro de Afectos,
Lisboa, edição do autor, 1992
sexta-feira, 19 de setembro de 2014
quarta-feira, 3 de setembro de 2014
segunda-feira, 18 de agosto de 2014
A kind of blue
*
... Foi quando tudo ficou coberto de neve que reparei que as portas e as janelas eram azuis.
*
Albert Camus, Cadernos II,
trad. António Quadros, Lisboa: Livros do Brasil, s/d
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
UMA HISTÓRIA DOS SONHOS
[...]
Como se num palco escuro ou vazio, ou uma coisa e outra, um único foco de luz apontasse para um homem sozinho e desmunido de particulares atributos, ou só com um único atributo, o seu sonho. O seu sonho que é o que dele acabamos por saber e praticamente a única coisa que dele ficamos a saber. Como se o palco não fosse ocupado por um homem de carne e osso, rodeado das suas várias circunstâncias, mas pelo seu sonho apenas. Um sonho estranho, como quase todos os sonhos, mas de que valesse a pena relatar os possíveis detalhes. O palco até pode estar materialmente vazio, como se numa peça de Samuel Beckett, mas esse vazio é ilusório porque há um pano de fundo e esse pano de fundo tem um nome. Podemos chamar-lhe História. É, de resto, na História que se inscrevem os sonhos dos homens, que dela ficam a fazer parte integrante e ela ficam a ocupar um lugar menos que diminuto. Nem dará para uma nota de pé de página.
[...]
RUI CAEIRO
in Em Torno do Desejo de Prisão, a partir de um conto de Elizabeth Bishop,
traduzido por Helder Moura Pereira, com um posfácio de Rui Caeiro
e ilustrado por Mariana Gomes, Lisboa: Letra Livre, 2009
sexta-feira, 8 de agosto de 2014
«Tejido en carne viva», escribe Rui Caeiro en un aforismo con rotundidad de poética, «—único lugar donde verdaderamente da gusto escribir». Sus variaciones sobre el asunto del morir parecen, antes que escritas, conversadas entre amigos. El hilo con el que teje la lengua poética brota en fuentes coloquiales, pero recoge aguas de pensamiento y de sensibilidad en su cauce. La obsesión, siempre, es encontrar un punto de vista no usado desde el que pensar sobre lo que piense. Entre dos polos que atraigan ideas, Rui Caeiro huye siempre de los dos. Entre angustia y alegría, elige la salsa agridulce.
Subscrever:
Mensagens (Atom)

