sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Ainda atacas
como pode atacar um amor já ido
lá de vez em quando ainda atacas
irrompes num súbito alarme
sacodes-me de alto a baixo
impiedosa
mente
sacodes
me
e devagar te afastas
como um sol a por
se


Rui Caeiro, Sobre a nossa morte bem muito obrigado,
Lisboa: Alambique, 2014

domingo, 3 de agosto de 2014

sábado, 2 de agosto de 2014

SENTAMO-NOS OCIOSAMENTE BÊBADOS E LOUCOS PARA EDITAR


Ideias de liberdade estão ligadas à bebida
O nosso ideal contém uma taberna
Onde um homem se pode sentar e conversar ou apenas pensar
Sem qualquer medo do dragão nocturno,
Ou então outra taberna onde o medo surge.
Não há letreiros com não se fia ou não há crédito
E abstraindo as ilimitadas cervejas
Sentamo-nos ociosamente bêbados e loucos para editar
Panfletos de um país realmente melhor onde um homem
Pode beber vinho mais fino, ah, um vinho por destilar,
Que intoxica subtilmente sem dor,
Tecendo a visão de uma estalagem inassimilável
Onde podemos beber eternamente,
Com a porta aberta, e o vento a soprar.


Malcolm Lowry (trad. José Agostinho Baptista)
in Telhados de Vidro n.º3,
Lisboa: Averno, Novembro de 2004

quarta-feira, 23 de julho de 2014





[...]

"I thought you'd never say hello" she said
"You look like the silent type"
Then she opened up a book of poems
And handed it to me
Written by an Italian poet
From the fifteenth century
And every one of them words rang true
And glowed like burning coal
Pouring off of every page
Like it was written in my soul from me to you
Tangled up in blue 

[...]

domingo, 20 de julho de 2014

VERÃO


É um jardim claro, entre muros baixos,
de erva seca e de luz, que devagar coze
a sua terra. É uma luz que sugere o mar.
Respiras essa erva. Tocas os cabelos
e  fazes brotar a recordação.

                                                               Vi tombar
muitos frutos doces na erva familiar,
com um baque. Assim te sobressaltas também
ao tremor do sangue. Moves a cabeça
como se em torno ocorresse um prodígio impalpável
e o prodígio és tu. Há um mesmo sabor
nos teus olhos e na cálida recordação.

                                                                     Escutas.
As palavras que escutas tocam-te ao de leve.
Tens no rosto calmo um pensamento claro
que nos teus ombros imita a luz do mar.
Tens no rosto um silêncio que atinge o coração
opresso, e destila uma antiga pena
como o sumo dos frutos caídos nesse tempo.


Cesare Pavese, O Vício Absurdo,
sel. e trad. Rui Caeiro,
Lisboa: & etc, 1990

domingo, 6 de julho de 2014

#2




Isabel Nogueira (texto e fotografias) e Paulo Furtado (música),
A Kind of Blue,
Lisboa: Alambique, 2014
[Tiragem de 200 exemplares]